Num sábado ensolarado em pleno verão, duas horas da tarde, em um galpão coberto por telhas de zinco, começa o baile.
A clientela, na faixa dos 60/65 ou mais anos, vai chegando exibindo seus cabelos brancos e muita vida no coração. As mulheres nos seus melhores vestidos longos, pelo joelho, de renda, de seda, rodados e justos, enfeitam-se com acessórios que vão de colares, brincos, pulseiras, a tiaras nos cabelos. A maquiagem discreta realça o principal adorno: o brilho dos olhos.
Os homens, por sua vez, não deixam por menos. Capricham na indumentária e escolhem combinações muitas vezes, digamos, meio estranhas, mas no geral predomina o bom gosto. O cabelo, pelo menos o que resta dele, é ajeitado com muito gel para não soltar os fios.
Nesse ambiente, corpos malhados, cinturas finas ou porte atlético são descartados. Reinam formas sem formas, físicos curvados, arredondados, mas todos comprometidos com uma questão maior: a felicidade.
O conjunto musical, formado por membros de meia idade, dá os primeiros acordes iniciando o baile com uma valsa bem ao gosto dos frequentadores. Logo o salão fica repleto de casais girando, girando, acompanhando o ritmo sem floreios, na cadência do "dois pra lá, dois pra cá".A dança para os cavalheiros é um sacerdócio, uma missão em que o comprometimento de conduzir a dama com todo respeito é condição sine qua non no contrato social. Nesse valser, xotear, sambar e outros ritmos dançantes, os casais se misturam formando uma rosácea que se abre no salão, deixando à mostra algumas peculiaridades.
Um casal de estatura baixa acompanha a música com os olhos fechados, sentem-se completamente envolvidos por aquela melodia que os abraça. Ela, em seu vestido de renda azul, obedece aos comandos seguros do cavalheiro que traja um bem assentado terno de linho branco. Outro casal, de proporções arredondadas, gira pelo salão a procura de um espaço para dançar, ela em um vestido de bolas brancas em fundo preto, o qual não favorece sua silhueta, e ele em uma camisa florida sobre calças vermelhas e, para completar o visual, óculos escuros.
Em meio aos rodopios dos dançarinos, surge a figura mais estranha daquele salão. Nos seus setenta ou mais anos, emoldurados por um terno rosa, arrematado por um lenço preto no pescoço e um mirradinho rabo-de-cavalo, o elegante cavalheiro conduz sua pequenina dama por todo salão aos acordes de um vanerão, música típica do sul.
Essa heterogeneidade no trajar ilumina o salão, dá um colorido especial, sai do pretenso elegante "pretinho" que os jovens tanto apregoam, ou da obrigatoriedade de certas tendências da moda.
Resumindo, é isso que vale: passos bem marcados pelo ritmo, delicadeza na condução das damas, camisas suadas, elegância desfeita, tudo temperado com muita alegria- tributo à vida dos que já viveram e vivenciaram tormentas e calmarias.
Genni Gomes de Oliveira


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