O BAILE DA TARDE  escrito em segunda 23 fevereiro 2009 15:24

Num sábado ensolarado em pleno verão, duas horas da tarde, em um galpão coberto por telhas de zinco, começa o baile.

A clientela, na faixa dos 60/65 ou mais anos, vai chegando exibindo seus cabelos brancos e muita vida no coração. As mulheres nos seus melhores vestidos longos, pelo joelho, de renda, de seda, rodados e justos, enfeitam-se com acessórios que vão de colares, brincos, pulseiras, a tiaras nos cabelos. A maquiagem discreta realça o principal adorno: o brilho dos olhos.

Os homens, por sua vez, não deixam por menos. Capricham na indumentária e escolhem combinações muitas vezes, digamos, meio estranhas, mas no geral predomina o bom gosto. O cabelo, pelo menos o que resta dele, é ajeitado com muito gel para não soltar os fios.

Nesse ambiente, corpos malhados, cinturas finas ou porte atlético são descartados. Reinam formas sem formas, físicos curvados, arredondados, mas todos comprometidos com uma questão maior: a felicidade.

O conjunto musical, formado por membros de meia idade, dá os primeiros acordes iniciando o baile com uma valsa bem ao gosto dos frequentadores. Logo o salão fica repleto de casais girando, girando, acompanhando o ritmo sem floreios, na cadência do "dois pra lá,  dois pra cá".A dança para os cavalheiros é um sacerdócio, uma missão em que o comprometimento de conduzir a dama com todo respeito é condição sine qua non no contrato social. Nesse valser, xotear, sambar e outros ritmos dançantes, os casais se misturam formando uma rosácea que se abre no salão, deixando à mostra algumas peculiaridades. 

Um casal de estatura baixa acompanha a música com os olhos fechados, sentem-se completamente envolvidos por aquela melodia que os abraça. Ela, em seu vestido de renda azul, obedece aos comandos seguros do cavalheiro que traja um bem assentado terno de linho branco. Outro casal, de proporções arredondadas, gira pelo salão a procura de um espaço para dançar, ela em um vestido de bolas brancas em fundo preto, o qual não favorece sua silhueta, e ele em uma camisa florida sobre calças vermelhas e, para completar o visual, óculos escuros.

Em meio aos rodopios dos dançarinos, surge a figura  mais estranha daquele salão. Nos seus setenta ou mais anos, emoldurados por um terno rosa, arrematado por um lenço preto no pescoço e um mirradinho rabo-de-cavalo, o elegante cavalheiro conduz sua pequenina dama por todo salão aos acordes de um vanerão, música típica do sul.

Essa heterogeneidade no trajar ilumina o salão, dá um colorido especial, sai do pretenso elegante "pretinho" que os jovens tanto apregoam, ou da obrigatoriedade de certas tendências da moda.

Resumindo, é isso que vale: passos bem marcados pelo ritmo, delicadeza na condução das damas, camisas suadas, elegância desfeita, tudo temperado com muita alegria- tributo à vida dos que já viveram e vivenciaram tormentas e calmarias.

Genni Gomes de Oliveira

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O BAILE DA TARDE  escrito em segunda 23 fevereiro 2009 15:17

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Juventude  escrito em terça 06 maio 2008 13:30

A garota passa  com sua mini esvoaçante. Feita de tecido leve, a saia ondula ao sabor do vento e, quando sobe, deixa à mostra uma belezura de coxas de dar gosto. Sabedora de sua beleza morena, Zuleica olha  para o rastro que deixa atrás de si e diverte-se com o  estrago que causa. Há uma fila de moços e velhos hipnotizados, inebriados pela brejeirice da moça e pelo andar cadenciado, acompanhado pelo vai-e-vem dos longos cabelos crespos.

É  um quadro digno de um  pintor, construído pincelada a pincelada.

 

 Quando desaparece, fica no ar um perfume de flores do campo que arrasta alguns seguidores mais afoitos. Certa de seu poder provocador, continua sua caminhada, já nem sabe mais  para onde vai, mas isso pouco importa, o que vale é a alegria que espalha para os que podem ver e sentir.

É a juventude, predicado passageiro, mas que enfeita o mundo.  É como um jardim com flores recém abertas, exalando cada uma o seu perfume característico e  com muito apelo sensorial.

 

Zuleica é uma dessas flores, recém aberta, cheia de perfume e beleza. Saltita entre outras, nem tão perfumadas, já com menos cores em suas pétalas e com seus caules cansados de segurá-las. O tempo delas está passando e com isso tornam-se  menos atraentes. E, por fim, há aquelas que já caíram, sem viço e sem nada. Mas Zuleica, no alto de seus 18 anos, não percebe o entardecer de suas semelhantes, vê apenas o raiar de um lindo sol brilhante, é o seu tempo que não passou ainda.

 

A juventude é  tudo de bom, quando nela estamos mergulhados o tempo  não conta, e a distância entre ela e o entardecer da vida parece   imensurável. Por essa razão, Zuleica não entende o desfolhar de algumas flores que caem obedecendo ao tempo que já passou e, menos ainda, as que já cumpriram todas as etapas e  se aquietam num canto qualquer.

 

 

 

 

 

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CARNAVAL EM ILHA BELA  escrito em quarta 06 fevereiro 2008 23:41

A praia não poderia ser mais aprazível: areia branca, macia, contornada por uma cadeia de montanhas verde-oliva, mar calmo, de tom azul esverdeado, salpicado pelo branco dos barcos, lanchas e iates, como um jardim florido. Dois petroleiros de cor cinza se misturam às montanhas durante o dia. À noite ganham vida, quando suas luzes se acendem e brilham ao longe, como um parque de diversões.

É nesse o cenário que a vida é dez!  Garotas lindas, em seus sumários biquínis, no “vaivém de seus quadris”, arrancam olhares e suspiros masculinos, postados como uma espécie de “júri”, que tudo vê por trás dos óculos escuros, expediente que lhes confere o anonimato confortável. A oferta é tanta que não convém dirigir-se a elas, e sim apreciá-las, uma a uma, nos seus predicados, trejeitos e artifícios. É o jogo da sedução.

 

A garota, em seu biquíni de poá azul e branco sobre a pele dourada, estende-se numa esteira de palha, seu território, e lá mexe e remexe o corpo com movimentos sensuais, na tentativa de colorir de sol o único pedacinho que ainda não fora beijado pelo astro rei. A mulata com olhos verdes, cabelos longos, desfila em uma tanguinha florida, vista de frente, porque por trás, coberta até a altura do bumbum com uma camiseta dobrada, tem-se a impressão que nada há por baixo. Parece ser exatamente essa a impressão  que ela quer passar. Nessa arena, todas usam das armas que têm para se destacar. Não imaginam que já possuem todo enfeite necessário: a juventude.

 

Há uma ducha de água doce, por onde passa uma fila permanente de garotas que se molham para voltar ao sol e fixar  o bronzeado.  Um grupo de coroas posta-se ao lado delas para apreciar bem de perto aquelas belezuras, diante de tanta “carne firme” salivam mais que o próprio chuveiro. Um apreciador mais ousado chega a tocar o ombro de uma delas e tem como resposta um olhar fulminante, seguido de um “ Vê se se enxerga vovô”! Benditos óculos escuros que, naturalmente, nessa hora, escondem o apagar do brilho  dos olhos daquele cinquentão. Mais reservado e mais prudente, um outro admirador, já longe dos seus anos “teens”, encorajado pelo mesmo expediente dos óculos escuros e pelo jornal aberto, que lhe cobre o rosto, bebe de toda beleza e sensualidade que invadem suas retinas, sem ser percebido.

 

Num espaço como esse, onde o lugar-comum é a pouca roupa, uma garota meio fora dos padrões de beleza reinante desfila na passarela do sol e consegue ter a atenção dos presentes pelo inusitado de seus trajes: vestido longo florido, lenço de cigana na cabeça pulseiras douradas, e brincos acompanhando o tom das pulseiras. É a guerra pela notoriedade.

 Os garotos também se preocupam em se enfeitar na disputa acirrada pela sedução. A maioria deles usa chapéus, de diversos tipos, colares, pulseiras, brincos, cabelos compridos soltos ou rabos-de-cavalo. Sabem que também passam pelo crivo seletivo das garotas, em que alguns quesitos como alto, forte, musculoso, coxas grossas e ombros largos são dispensáveis.

Um moreno de porte atlético exibe uma filmadora “high tech”, de um lado para outro, arrebatando os olhares das ninfas, mas o que ele pensa estar exibindo em termos de “status”,  não é, na verdade, objeto de admiração e sim o próprio porte físico.

 

Munidos de latas de cerveja, ou bebendo no gargalo das garrafas os garotos sentem-se mais seguros para lançar seus galanteios, no jogo da conquista.

 Como uma “estranha no ninho”, desfavorecida pelo implacável caminhar do tempo, a “lady” recorre a um maiô verde- limão, com detalhes roxos, chapéu havana, óculos escuros estilo gatinho, brincos de argola dourados, e uma canga com cores que combinam com o conjunto. Não consegue convergir olhares, nem dos “garotos de outrora”. O tempo é implacável e deixa marcas indesejáveis.

 

Contrastando com isso tudo, há um outro tipo de desfile, dos que lutam pela própria sobrevivência: os vendedores. Cada um procura chamar a atenção dos veranistas, não pelo porte físico, bronzeado, ou pela beleza, mas sim para que comprem seus produtos, que lhes garantem o dia-a-dia. O vendedor de amendoins se enfeita com os favos, pendurando-os por entre os cabelos, formando uma cabeleira “black power”, e com o “slogan” “falta um amendoim aí para fazer sua felicidade!” ele caminha entre as belas, sem notá-las, olhos atentos nos fregueses. O sorveteiro, vestido de branco, suando em bicas, mas sorridente empurra o carrinho sem fazer propaganda. O próprio calor de 38 graus se encarrega disso. O que mais se destaca entre eles é o vendedor de cerveja e suco de laranja, um jovem bonito, forte, que usa uma série de artifícios para se fazer notar: óculos coloridos, brincos de argolas grandes, seios postiços, roupas coloridas, e com voz estridente berra a todo pulmão  “Olha a lourinha aí gente! Vamos hidratar esse corpinho!” Além de distribuir simpatia, conversando e brincando com todos, o vendedor exibe uma resistência impressionante, ao caminhar pelas areias quentes, atendendo a todos até o último aceno do dia.

 

Dois públicos, dois propósitos diferentes, um servindo ao outro... igualam-se, por um momento, as classes sociais. Ao final da tarde, com muitas latas e garrafas vazias, a garotada enlouquece ao som da banda, ao vivo. A ordem é pular e pular. A pouca roupa lhes facilita os movimentos e então a brasilidade aflora, e a moçada mostra que não é “nem ruim da cabeça nem doente do pé”

 

Coroando toda essa alegria, o sol se põe devagarzinho, distribuindo seus raios dourados, já enfraquecidos, cansaços, sem o mesmo vigor da manhã, mas com beleza suficiente para derramar seus reflexos no mar, criando uma atmosfera mágica, um cenário perfeito para fechar em grande estilo o carnaval, nessa ilha da Fantasia.

   

 

 

 

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FELIZ ANO NOVO  escrito em sexta 28 dezembro 2007 17:47



  Feliz Ano Novo! Mas o que é o Novo?

Ficamos mais velhos a cada ano que passa! Então o NOVO traz o velho? Coisa maluca essa não?

Mas para não ferir a tradição reflitamos um pouco sobre este tema. O Ano Novo, queiramos ou não,  vem num pacote fechado, imprevisível, ou será previsível? Uns dizem ser possível projetar os acontecimentos  de acordo com o “andar da carruagem” do ano que está se despedindo,  outros acreditam ser imprevisível uma vez que nada do que virá foi vivido ainda.

 

 Na verdade, tudo vai depender do olhar de cada um. Os que o esperam  carregado de boas surpresas possuem a esperança dos otimistas. Os que não o  vêem assim fazem predições nada coloridas ancoradas nas mesmices já vividas, e pior, somadas às desilusões, pintam o rebento de negro.

 

Dessa maneira, o Novo para uns pode significar novas chances, novas mudanças, novas  esperanças, enquanto que para outros, o Novo pode parecer velho, decadente e sem perspectiva.

 

 Assim, depende de cada um de nós atribuirmos esta ou aquela cor ao NOVO que se inicia.

Diante disso, melhor ficarmos otimistas, pois o negativismo não contribui em nada para nossas vidas. Vamos esperar o melhor para 2008.

 

GenniGomes de Oliveira

                     FELIZ 2008 NOVO

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