Juventude  escrito em terça 06 maio 2008 13:30

A garota passa  com sua mini esvoaçante. Feita de tecido leve, a saia ondula ao sabor do vento e, quando sobe, deixa à mostra uma belezura de coxas de dar gosto. Sabedora de sua beleza morena, Zuleica olha  para o rastro que deixa atrás de si e diverte-se com o  estrago que causa. Há uma fila de moços e velhos hipnotizados, inebriados pela brejeirice da moça e pelo andar cadenciado, acompanhado pelo vai-e-vem dos longos cabelos crespos.

É  um quadro digno de um  pintor, construído pincelada a pincelada.

 

 Quando desaparece, fica no ar um perfume de flores do campo que arrasta alguns seguidores mais afoitos. Certa de seu poder provocador, continua sua caminhada, já nem sabe mais  para onde vai, mas isso pouco importa, o que vale é a alegria que espalha para os que podem ver e sentir.

É a juventude, predicado passageiro, mas que enfeita o mundo.  É como um jardim com flores recém abertas, exalando cada uma o seu perfume característico e  com muito apelo sensorial.

 

Zuleica é uma dessas flores, recém aberta, cheia de perfume e beleza. Saltita entre outras, nem tão perfumadas, já com menos cores em suas pétalas e com seus caules cansados de segurá-las. O tempo delas está passando e com isso tornam-se  menos atraentes. E, por fim, há aquelas que já caíram, sem viço e sem nada. Mas Zuleica, no alto de seus 18 anos, não percebe o entardecer de suas semelhantes, vê apenas o raiar de um lindo sol brilhante, é o seu tempo que não passou ainda.

 

A juventude é  tudo de bom, quando nela estamos mergulhados o tempo  não conta, e a distância entre ela e o entardecer da vida parece   imensurável. Por essa razão, Zuleica não entende o desfolhar de algumas flores que caem obedecendo ao tempo que já passou e, menos ainda, as que já cumpriram todas as etapas e  se aquietam num canto qualquer.

 

 

 

 

 

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CARNAVAL EM ILHA BELA  escrito em quarta 06 fevereiro 2008 23:41

A praia não poderia ser mais aprazível: areia branca, macia, contornada por uma cadeia de montanhas verde-oliva, mar calmo, de tom azul esverdeado, salpicado pelo branco dos barcos, lanchas e iates, como um jardim florido. Dois petroleiros de cor cinza se misturam às montanhas durante o dia. À noite ganham vida, quando suas luzes se acendem e brilham ao longe, como um parque de diversões.

É nesse o cenário que a vida é dez!  Garotas lindas, em seus sumários biquínis, no “vaivém de seus quadris”, arrancam olhares e suspiros masculinos, postados como uma espécie de “júri”, que tudo vê por trás dos óculos escuros, expediente que lhes confere o anonimato confortável. A oferta é tanta que não convém dirigir-se a elas, e sim apreciá-las, uma a uma, nos seus predicados, trejeitos e artifícios. É o jogo da sedução.

 

A garota, em seu biquíni de poá azul e branco sobre a pele dourada, estende-se numa esteira de palha, seu território, e lá mexe e remexe o corpo com movimentos sensuais, na tentativa de colorir de sol o único pedacinho que ainda não fora beijado pelo astro rei. A mulata com olhos verdes, cabelos longos, desfila em uma tanguinha florida, vista de frente, porque por trás, coberta até a altura do bumbum com uma camiseta dobrada, tem-se a impressão que nada há por baixo. Parece ser exatamente essa a impressão  que ela quer passar. Nessa arena, todas usam das armas que têm para se destacar. Não imaginam que já possuem todo enfeite necessário: a juventude.

 

Há uma ducha de água doce, por onde passa uma fila permanente de garotas que se molham para voltar ao sol e fixar  o bronzeado.  Um grupo de coroas posta-se ao lado delas para apreciar bem de perto aquelas belezuras, diante de tanta “carne firme” salivam mais que o próprio chuveiro. Um apreciador mais ousado chega a tocar o ombro de uma delas e tem como resposta um olhar fulminante, seguido de um “ Vê se se enxerga vovô”! Benditos óculos escuros que, naturalmente, nessa hora, escondem o apagar do brilho  dos olhos daquele cinquentão. Mais reservado e mais prudente, um outro admirador, já longe dos seus anos “teens”, encorajado pelo mesmo expediente dos óculos escuros e pelo jornal aberto, que lhe cobre o rosto, bebe de toda beleza e sensualidade que invadem suas retinas, sem ser percebido.

 

Num espaço como esse, onde o lugar-comum é a pouca roupa, uma garota meio fora dos padrões de beleza reinante desfila na passarela do sol e consegue ter a atenção dos presentes pelo inusitado de seus trajes: vestido longo florido, lenço de cigana na cabeça pulseiras douradas, e brincos acompanhando o tom das pulseiras. É a guerra pela notoriedade.

 Os garotos também se preocupam em se enfeitar na disputa acirrada pela sedução. A maioria deles usa chapéus, de diversos tipos, colares, pulseiras, brincos, cabelos compridos soltos ou rabos-de-cavalo. Sabem que também passam pelo crivo seletivo das garotas, em que alguns quesitos como alto, forte, musculoso, coxas grossas e ombros largos são dispensáveis.

Um moreno de porte atlético exibe uma filmadora “high tech”, de um lado para outro, arrebatando os olhares das ninfas, mas o que ele pensa estar exibindo em termos de “status”,  não é, na verdade, objeto de admiração e sim o próprio porte físico.

 

Munidos de latas de cerveja, ou bebendo no gargalo das garrafas os garotos sentem-se mais seguros para lançar seus galanteios, no jogo da conquista.

 Como uma “estranha no ninho”, desfavorecida pelo implacável caminhar do tempo, a “lady” recorre a um maiô verde- limão, com detalhes roxos, chapéu havana, óculos escuros estilo gatinho, brincos de argola dourados, e uma canga com cores que combinam com o conjunto. Não consegue convergir olhares, nem dos “garotos de outrora”. O tempo é implacável e deixa marcas indesejáveis.

 

Contrastando com isso tudo, há um outro tipo de desfile, dos que lutam pela própria sobrevivência: os vendedores. Cada um procura chamar a atenção dos veranistas, não pelo porte físico, bronzeado, ou pela beleza, mas sim para que comprem seus produtos, que lhes garantem o dia-a-dia. O vendedor de amendoins se enfeita com os favos, pendurando-os por entre os cabelos, formando uma cabeleira “black power”, e com o “slogan” “falta um amendoim aí para fazer sua felicidade!” ele caminha entre as belas, sem notá-las, olhos atentos nos fregueses. O sorveteiro, vestido de branco, suando em bicas, mas sorridente empurra o carrinho sem fazer propaganda. O próprio calor de 38 graus se encarrega disso. O que mais se destaca entre eles é o vendedor de cerveja e suco de laranja, um jovem bonito, forte, que usa uma série de artifícios para se fazer notar: óculos coloridos, brincos de argolas grandes, seios postiços, roupas coloridas, e com voz estridente berra a todo pulmão  “Olha a lourinha aí gente! Vamos hidratar esse corpinho!” Além de distribuir simpatia, conversando e brincando com todos, o vendedor exibe uma resistência impressionante, ao caminhar pelas areias quentes, atendendo a todos até o último aceno do dia.

 

Dois públicos, dois propósitos diferentes, um servindo ao outro... igualam-se, por um momento, as classes sociais. Ao final da tarde, com muitas latas e garrafas vazias, a garotada enlouquece ao som da banda, ao vivo. A ordem é pular e pular. A pouca roupa lhes facilita os movimentos e então a brasilidade aflora, e a moçada mostra que não é “nem ruim da cabeça nem doente do pé”

 

Coroando toda essa alegria, o sol se põe devagarzinho, distribuindo seus raios dourados, já enfraquecidos, cansaços, sem o mesmo vigor da manhã, mas com beleza suficiente para derramar seus reflexos no mar, criando uma atmosfera mágica, um cenário perfeito para fechar em grande estilo o carnaval, nessa ilha da Fantasia.

   

 

 

 

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FELIZ ANO NOVO  escrito em sexta 28 dezembro 2007 17:47



  Feliz Ano Novo! Mas o que é o Novo?

Ficamos mais velhos a cada ano que passa! Então o NOVO traz o velho? Coisa maluca essa não?

Mas para não ferir a tradição reflitamos um pouco sobre este tema. O Ano Novo, queiramos ou não,  vem num pacote fechado, imprevisível, ou será previsível? Uns dizem ser possível projetar os acontecimentos  de acordo com o “andar da carruagem” do ano que está se despedindo,  outros acreditam ser imprevisível uma vez que nada do que virá foi vivido ainda.

 

 Na verdade, tudo vai depender do olhar de cada um. Os que o esperam  carregado de boas surpresas possuem a esperança dos otimistas. Os que não o  vêem assim fazem predições nada coloridas ancoradas nas mesmices já vividas, e pior, somadas às desilusões, pintam o rebento de negro.

 

Dessa maneira, o Novo para uns pode significar novas chances, novas mudanças, novas  esperanças, enquanto que para outros, o Novo pode parecer velho, decadente e sem perspectiva.

 

 Assim, depende de cada um de nós atribuirmos esta ou aquela cor ao NOVO que se inicia.

Diante disso, melhor ficarmos otimistas, pois o negativismo não contribui em nada para nossas vidas. Vamos esperar o melhor para 2008.

 

GenniGomes de Oliveira

                     FELIZ 2008 NOVO

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VÉSPERA DE NATAL  escrito em sexta 21 dezembro 2007 18:12

Os shoppings ficam abarrotados ás vésperas de Natal. As pessoas enlouquecem! Caminham pelos corredores com olhos fixos nas vitrines, como se de um momento para outro saltasse a sua frente aquilo que tanto desejam. E o que desejam? Não sabem. Mas é preciso, é véspera de Natal, é preciso ir ao shopping comprar alguma coisa! Todos vão! "Você já foi ao shopping?" Pergunta dona Clarice. "Ainda não tive tempo, mas vou sem falta esse fim de semana" Responde dona Gertrudes.

 

Ao embalo das músicas natalinas, todos precisam de um sapato novo, um vestido da moda, um espremedor de frutas, uma coleira anti-pulga para o cachorro, e, por que não um colchão com bolinhas, que massageia a coluna. Dizem que é muito bom.

 

O garoto afobado puxa a saia da mãe e diz: "Manhê, é esse que eu quero. Vai, compra!" E a mãe para ajeitar as coisas, diz "Já encomendei ao Papai Noel". O menino, meio desconfiado, volta-se para a vitrine, depois para a mãe, e assim sucessivamente, até seu "desejo" desaparecer na esquina do próximo corredor.

 

O marido, cercado pelos filhos- três - e mais a esposa, escorrega mais que sabão diante dos pedidos natalinos da família: "É, podemos ver depois, vamos pesquisar os preços antes". E os olhos dos "pedintes" vão ficando embotados, desesperançados, cheios de indagações!

 

Na euforia dos tempos natalinos, há um desejo frenético de mudar. Tudo se torna velho, gasto, antigo e de mal gosto de repente. É preciso comprar e comprar, carregar pacotes e mais pacotes, sentir-se cansado, conseguir um espaço para andar, reclamar do atendimento nas lojas, e, por fim, sentir-se livre ao deixar o shopping e voltar para casa com a alma leve, na certeza da realização das boas compras feitas.

 

Enfim, é Natal. Abrem-se os presentes e aos poucos toda aquela euforia vai se desvanecendo. O olhar é outro, muito mais crítico, e a garota percebe que a mini que ela escolheu não é tão mini assim; aqueles lindos sapatos da vitrine agora apertam os pés, e o soutien para levantar e dar um ar de garota, como mostrava a vitrine, não funciona para dona Matilde. E, veja só, o senhor Rubens sente-se aprisionado dentro das cuecas modernas que a mulher o aconselhara comprar "Vamos deixe de lado aquelas sambas-canção que tiram qualquer tesão."

Porém o senhor Rubens não se adapta ao moderno,  volta à moda antiga, e as devolve à mulher e diz para ela desaparecer com aqueles "cintos de castidade" que lhes tiram a liberdade de ir e vir.

 

Bem, pacotes abertos passa-se para o segundo ato: comer e comer, tudo de uma vez: peru combinando com leitão, farofa com maionese, macarronada, salada etc., etc... Muito vinho, cerveja, uísque; enfim, tudo a que se tem direito. Depois vem a sobremesa: pudim, bolo de nozes, pavê de amendoim, nossa! Quanta coisa boa!

"Acho que agora é hora de descansar um pouquinho" Diz o chefe da casa, afinal o estômago também cansa. Quando acorda já é muito tarde e o Natal, já passou. "Até me esqueci de hoje é Natal!"

 

Triste realidade; a data em que se comemora o nascimento de Jesus transforma-se em dia de receber presentes, comer, beber e descansar. A verdadeira alegria que deveria aflorar em todos os corações pelo maravilhoso acontecimento fica em último plano. Assim é o ser humano: valores externos sobrepujam os valores internos e sufocam a voz da alma.

 

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FRANCISCA  escrito em sábado 01 dezembro 2007 18:19

 

Francisca caminha meio trôpega, parece bêbada,  olhar no chão,  passa pelo bar da esquina da avenida principal,  deixando no ar uma essência longe de ser francesa.  Os habitues a seguem com olhares indagadores. “ O que aconteceu com ela?” Fala o primeiro. “Tão fina!” Acrescenta o segundo. “Vai vê que se cansou da vidinha de madame” Alfineta o terceiro. Mas logo se calam, pois Francisca muda seu rumo e dirige-se ao bar, para  espanto de todos.

 

Encosta-se ao balcão e pede uma das “fortes” ao atendente  Zé das Abelhas, (tinha esse apelido porque quando criança teve um olho cegado por um enxame que o atacou ). O moço pára e, não acreditando no pedido, espera. “Vamos, a bebida”, insiste Francisca. O pobre Zé fica tão baratinado que precisa de um gole ingerido de uma só vez, para tomar pé da situação. Volta o olhar para a dama na esperança de que ela esteja apenas brincando ou coisa parecida, mas qual, Francisca bate  com os punhos no balcão e ordena sem deixar dúvidas. “Das fortes”, eu disse vai atender ou não?” Com olhar suplicante “...o que eu faço agora?”, dirigido aos freqüentadores, Zé das Abelhas na sua simplicidade aproxima-se do balcão e, medindo as palavras, tenta desvendar o mistério  daquele gesto tresloucado de tão respeitada dama.

 

Bem, gagueja o botequineiro,  “...se a madame permite” “ Não permito nada...” Corta Francisca asperamente, equilibrando seu corpo, já fora de prumo, em direção a uma cadeira próxima. Esparrama-se nela soltando seu fardo sem controle. Zé das Abelhas se aproxima e procura ajudá-la a se ajeitar no assento. Entre soluços e copiosas lágrimas desnuda-se com palavras: “Tanta dedicação, amor, respeito, tudo, tudo jogado fora”. Olhar marejado, voz mole, continua... “Quando naquela noite o conheci mostrou-se um homem respeitável, palavras doces, flores, galanteios, sem sombra de dúvida, um  apaixonado. Foi tudo tão rápido e envolvente que quando me dei conta já estava casada. O primeiro filho chegou num ambiente festivo que se repetiu com o segundo e com o  terceiro”. Encosta a cabeça no primeiro apoio que encontra, descansa, enxuga as lágrimas.

 

Agora já um pouco refeita, Francisca endireita-se na cadeira, pede um copo de água e, sentindo-se compreendida, prossegue: “A vida seguia, negócios prósperos, crianças em boas escolas, missa aos domingos, festa no clube, vizinhos amáveis, férias na praia... tudo na mais perfeita ordem. Ordem que virou desordem em poucos minutos. O que fora construído durante anos de vida vai por terra sem vida. Dona Cândida, a vizinha da frente, sem soar como mexerico, tentou me avisar inúmeras vezes. Com palavras escolhidas contou-me uma história que achei absurda, hoje percebo que era minha própria história”.

 

Os fregueses do bar amontoam-se cada vez mais ao redor de Francisca, os que já estão lá e os que chegam, bebem suas palavras e esperam pelo desfecho. Empenhada em lhes contar tudo, e, sentindo-se entre amigos, prepara-se para continuar, mas de repente pára um carro de bacana, desce um rapaz trajando um uniforme azul e sem dizer palavra, a toma pelo braço e a leva embora. Francisca não reage, acompanha-o como um robô, sem vontade, sem comando próprio. Decepcionados, os fregueses do bar entreolham-se e em cada olhar fica uma indagação: “O que aconteceu com ela?”

 

Mais tarde um grande cortejo fúnebre, seguido por três viúvas trajando vestes pretas, cada uma acompanhada por dois filhos, atravessa a pequena cidade. Era o coronel Braga que tinha sido morto a tiros na madrugada daquele dia. Homem poderoso e importante tem um acompanhamento numeroso e a atenção de toda cidade. Destacando-se do cortejo, muitos passos atrás, vêm Francisca toda de branco e seus três filhos, sem luto, sem lágrimas e sem tristeza, já havia experimentado esses sentimentos mais do que o suficiente, nas últimas horas.

  

 

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