A praia não
poderia ser mais aprazível: areia branca, macia, contornada
por uma cadeia de montanhas verde-oliva, mar calmo, de tom azul
esverdeado, salpicado pelo branco dos barcos, lanchas e iates, como
um jardim florido. Dois petroleiros de cor cinza se misturam
às montanhas durante o dia. À noite ganham vida,
quando suas luzes se acendem e brilham ao longe, como um parque de
diversões.
É nesse o
cenário que a vida é dez! Garotas
lindas, em seus sumários biquínis, no
“vaivém de seus quadris”, arrancam olhares e
suspiros masculinos, postados como uma espécie de
“júri”, que tudo vê por trás dos
óculos escuros, expediente que lhes confere o anonimato
confortável. A oferta é tanta que não
convém dirigir-se a elas, e sim apreciá-las, uma a
uma, nos seus predicados, trejeitos e artifícios. É o
jogo da sedução.
A garota, em seu
biquíni de poá azul e branco sobre a pele dourada,
estende-se numa esteira de palha, seu território, e
lá mexe e remexe o corpo com movimentos sensuais, na
tentativa de colorir de sol o único pedacinho que ainda
não fora beijado pelo astro rei. A mulata com olhos verdes,
cabelos longos, desfila em uma tanguinha florida, vista de frente,
porque por trás, coberta até a altura do bumbum com
uma camiseta dobrada, tem-se a impressão que nada há
por baixo. Parece ser exatamente essa a
impressão que ela quer passar. Nessa
arena, todas usam das armas que têm para se destacar.
Não imaginam que já possuem todo enfeite
necessário: a juventude.
Há uma
ducha de água doce, por onde passa uma fila permanente de
garotas que se molham para voltar ao sol e fixar
o bronzeado. Um grupo de coroas posta-se ao lado
delas para apreciar bem de perto aquelas belezuras, diante de tanta
“carne firme” salivam mais que o próprio
chuveiro. Um apreciador mais ousado chega a tocar o ombro de uma
delas e tem como resposta um olhar fulminante, seguido de um
“ Vê se se enxerga vovô”! Benditos
óculos escuros que, naturalmente, nessa hora, escondem o
apagar do brilho dos olhos daquele
cinquentão. Mais reservado e mais prudente, um outro
admirador, já longe dos seus anos “teens”,
encorajado pelo mesmo expediente dos óculos escuros e pelo
jornal aberto, que lhe cobre o rosto, bebe de toda beleza e
sensualidade que invadem suas retinas, sem ser percebido.
Num espaço
como esse, onde o lugar-comum é a pouca roupa, uma garota
meio fora dos padrões de beleza reinante desfila na
passarela do sol e consegue ter a atenção dos
presentes pelo inusitado de seus trajes: vestido longo florido,
lenço de cigana na cabeça pulseiras douradas, e
brincos acompanhando o tom das pulseiras. É a guerra pela
notoriedade.
Os garotos também se preocupam em se
enfeitar na disputa acirrada pela sedução. A maioria
deles usa chapéus, de diversos tipos, colares, pulseiras,
brincos, cabelos compridos soltos ou rabos-de-cavalo. Sabem que
também passam pelo crivo seletivo das garotas, em que alguns
quesitos como alto, forte, musculoso, coxas grossas e ombros largos
são dispensáveis.
Um moreno de porte
atlético exibe uma filmadora “high tech”, de um
lado para outro, arrebatando os olhares das ninfas, mas o que ele
pensa estar exibindo em termos de
“status”, não é, na
verdade, objeto de admiração e sim o próprio
porte físico.
Munidos de latas
de cerveja, ou bebendo no gargalo das garrafas os garotos sentem-se
mais seguros para lançar seus galanteios, no jogo da
conquista.
Como uma “estranha no ninho”,
desfavorecida pelo implacável caminhar do tempo, a
“lady” recorre a um maiô verde- limão, com
detalhes roxos, chapéu havana, óculos escuros estilo
gatinho, brincos de argola dourados, e uma canga com cores que
combinam com o conjunto. Não consegue convergir olhares, nem
dos “garotos de outrora”. O tempo é
implacável e deixa marcas indesejáveis.
Contrastando com
isso tudo, há um outro tipo de desfile, dos que lutam pela
própria sobrevivência: os vendedores. Cada um procura
chamar a atenção dos veranistas, não pelo
porte físico, bronzeado, ou pela beleza, mas sim para que
comprem seus produtos, que lhes garantem o dia-a-dia. O vendedor de
amendoins se enfeita com os favos, pendurando-os por entre os
cabelos, formando uma cabeleira “black power”, e com o
“slogan” “falta um amendoim aí para fazer
sua felicidade!” ele caminha entre as belas, sem
notá-las, olhos atentos nos fregueses. O sorveteiro, vestido
de branco, suando em bicas, mas sorridente empurra o carrinho sem
fazer propaganda. O próprio calor de 38 graus se encarrega
disso. O que mais se destaca entre eles é o vendedor de
cerveja e suco de laranja, um jovem bonito, forte, que usa uma
série de artifícios para se fazer notar:
óculos coloridos, brincos de argolas grandes, seios
postiços, roupas coloridas, e com voz estridente berra a
todo pulmão “Olha a lourinha
aí gente! Vamos hidratar esse corpinho!” Além
de distribuir simpatia, conversando e brincando com todos, o
vendedor exibe uma resistência impressionante, ao caminhar
pelas areias quentes, atendendo a todos até o último
aceno do dia.
Dois
públicos, dois propósitos diferentes, um servindo ao
outro... igualam-se, por um momento, as classes sociais. Ao final
da tarde, com muitas latas e garrafas vazias, a garotada enlouquece
ao som da banda, ao vivo. A ordem é pular e pular. A pouca
roupa lhes facilita os movimentos e então a brasilidade
aflora, e a moçada mostra que não é “nem
ruim da cabeça nem doente do pé”
Coroando toda essa
alegria, o sol se põe devagarzinho, distribuindo seus raios
dourados, já enfraquecidos, cansaços, sem o mesmo
vigor da manhã, mas com beleza suficiente para derramar seus
reflexos no mar, criando uma atmosfera mágica, um
cenário perfeito para fechar em grande estilo o carnaval,
nessa ilha da Fantasia.
Comentários